sábado, 30 de maio de 2020

ENSAIO: A Mulher que Venceu Don Juan


" A MULHER QUE VENCEU DON JUAN "
De uma realidade nua e crua, tão longínqua e tão próxima, solta-se, de Trás-os-Montes ao Algarve e, por terras de além mar: Moçambique, Brasil ou Argentina, este romance tridimensional de Teresa Martins Marques, " A Mulher que venceu Don Juan ". O ela, nós e eles, entre elementos ficcionais e pessoas concretas, amadas e conhecidas do eu, na aventura do diálogo constante, directo e indirecto do drama ou do humor, nessa corajosa analogia de palavras com diferentes  valores simbólicos (alma, lama, frio, frois, froid, pág.43). "Tu és eu e eu sou tu" (pág. 79). Leonor caminha pela verdura do amor desalentado e cansado de mãe como em diversos socalcos da verdadeira vida. Quisera que a realidade fosse diferente! Mas, a violência assume contornos diversificados, mesmo na própria casa, e, com as pessoas que mais amamos.
O papel da APAV no apoio contra essas formas de tirania, revê-se na figura da Dr.ª Lúcia e das mulheres vítimas de violência doméstica como Sara, Marta e Odete e, mesmo no Prof. Luís, que transformaram o medo em sobrevivência heroica contida em raiva. Porque: "o amor não é mais forte do que nós. Se deixarmos que o seja, acabou-se a liberdade" (pág.88). Teremos de matar  "esse veneno chamado destino" e "recomeçar, não ter medo de recomeçar. Amanhã é sempre outro dia" (pág.103).
Uma cativante  aventura pelos caminhos da Filosofia, Literatura e Psicologia, evidenciando um imenso conhecimento literário, cultural e histórico, numa linguagem rigorosa e atrativa, que nos prende e suspende às suas páginas, na ânsia da compreensão do desenlace final. São exemplo: o conhecimento da Tavira árabe, o Porto ou a Lisboa de hoje e de ontem; a psicanálise de Freud e a filosofia de Kierkegaard e o seu " Diário do Sedutor " (págs  136, 137, 303 e 304), na interpretação da sexualidade patológica do Don Juanismo (masculino e feminino) e a sua essência teatral e manipuladora, do " não-ser e o não-estar em parte alguma, a não ser em trânsito ", para dominar e violentar o outro: " pássaro e cobra " da sedução, dada a sua incapacidade de amar outrem, a não ser a si próprio, na compulsividade inconsciente de se afastar (reprimir) do objecto do seu desejo: alguém do mesmo sexo, que quere, afinal (pág 234 e 235). Porque, na impossibilidade de " curar " um psicopata do amor "serial lover", o " amar é separar-se, quando do convívio só resulta dor " (pág 302).
Emerge este belo e cativante romance de Teresa Martins Marques, pelos mares bravios da realidade existencial que impiedosa  e cruel, nas diferentes faces de violência e exploração do ser humano, contrasta com os percursos laterais das ondas suaves de amor,  tolerância, solidariedade e liberdade, nunca desistindo de construir um mundo melhor pela dignificação da  vida das pessoas,  numa corajosa ética profissional, missão tão simples e dura de muitos (as) e tendo como lema de vida o de Manuela, numa frase de Eduardo Lourenço: " Não emprestarei os meus joelhos aos ídolos sentados no lugar impossível de Deus".
Parabéns e muito obrigada, Teresa Martins Marques, foste tu a Corajosa e Grande  " Mulher que venceu Don Juan ".
Bragança, 3 de agosto de 2014
Mª Idalina Alves de Brito

ENSAIO: A Lógica da Investigação Científica


ENSAIO
REFLEXÕES SOBRE
" A LÓGICA DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA E A PLURAILIDADE DOS MÉTODOS I "
de
Aires Antunes Diniz

Já se passaram 21 anos desde que DINIZ, Aires Antunes, publicou "A Lógica da Investigação Científica e a Pluralidade dos Métodos I , ou como a filosofia é demasiado importante para ser deixada aos filósofos", 1ª edição, Coimbra, Minerva, 1994. Porquê então falar desta obra, revê-la, reanalisá-la, colocá-la em reflexão no momento presente? É que, as hipóteses nela levantadas, como uma imprevisibilidade de futuro e seus paradigmas, são também a multifacetada e presente realidade. A história da ciência, nomeadamente da ciência económica, perspectiva-se em condicionantes racionais e irracionais, que nos podem levar por caminhos nunca outrora percorridos e a conclusões jamais pensadas, ou se refletidas, não interiorizadas de concretizações possíveis.
Diniz, utiliza uma linguagem escrita assaz técnica, científica, muito complicada e hermética, só melhor compreensível para a comunidade dos investigadores e cientistas. Usa e abusa da heurística para chegar ao conhecimento científico numa procura insaciável da descoberta. Citações são às centenas (ser citado é ser conhecido? Importante para a comunidade científica, e não só?), justificações, demonstrações.
 O racionalismo procura-se, e, urge em cada palavra, cada frase pensada no muito que se quer dizer na contenção, na síntese da análise filosófica científica, no rigor exaustivo da simplificação metafísica, pelos imensos problemas da incomensurabilidade das teorias. A Filosofia da Ciência é um campo aberto para todas as ciências "demasiado importante para ser deixada aos filósofos", assim como a ética da ciência, a racionalização e a prática na produção científica.
Querendo afastar da ciência o subjetivo, as emoções, impondo uma constante racionalidade, redescobre que ao nível da economia e do mercado, essas razões irracionais são deveras importantes, pois são uma das condicionantes das nossas decisões.
Diniz, enquanto investigador, professor, economista, pretende chamar-nos a atenção para o paradigma da reconstrução da Teoria Económica, fundamentada no extraordinário papel das novas tecnologias na produção científica, baseando esta em valores éticos e deontológicos.
Caminhamos na sua reflexão pela Filosofia de Popper, de Lakatos e de Paul Feyerabend, na análise dos métodos da Dedução e Indução, do Método Marxista na Ciência Económica para nos concentrarmos na Revolução Científica e nas Novas Tecnologias, na Metafísica da Engenharia da Decisão e da Escolha, ou da Nova Engenharia Social, Utopia e Real, como novo paradigma de uma nova teoria.
Vejamos, então.
Mas antes, no Prefácio, era necessário Aires Diniz, essa demonstração de raiva, amargura, para com os inimigos? Sim, como humanos! Ou talvez não, como seres superiores! Inveja? Os meus, os teus, os nossos inimigos, ajudam-nos a evoluir, a criar e cultivar a resiliência, a ter forças para mais e melhor lutar! Os grandes homens e mulheres, também o são, no perdão. Por vezes, as pessoas são tão semelhantes, que não suportam a outra, já que é uma imagem de si própria. Vê-se e revê-se em si, e, não se quer ver. Porque vê as suas qualidades, melhor, os seus defeitos, que não gosta de ver, nem assumir. Deixemos esta análise psicológica para depois! Atitudes pessoais? Sim. Ou melhor, carpe diem!
Diniz fala-nos então dos rituais da produção científica, na práxis ora existente. De que forma se apresenta? O 1º ritual é o da linguagem e a forma de escrita, tendo em consideração os significados dentro do funcionamento social, a relatividade dos significados e significantes, a análise lógica dos textos, e, a estruturação linguística, a qualidade de soluções e reformulação dos problemas (pág.2). O 2º ritual é o da citação, como árvores de citações, que o autor aplica extraordinariamente nesta obra. E que, segundo Laband (1986), o valor científico é medido pelas citações. Permitam-me discordar, não no que se refere a uma análise cronológica de factos, mas à criatividade, conhecimento e imaginação intuitiva que todo o investigador possui ou deve possuir. O 3º ritual (pág.3) é o da publicação em revistas, livros, jornais, etc, utilizando uma retórica literária que seja aceite pela comunidade científica (Malloskey, 1983 e 1985). Mais uma vez é aqui invocado (em nota de rodapé) o extraordinário papel dos inimigos ao descobrirem os nossos erros e fraquezas e a quem não se paga pela sua eficácia na nossa evolução.
Fala-nos no preço de escrever bem, no objetivo do novo marketing que é o apoio ao cliente, na qualidade da produção, sua apresentação e legibilidade. Passa ao uso da linguagem literária e da linguagem matemática, ambas necessárias para a expressão rigorosa e adequada do pensamento, para novamente, em nota de rodapé (pág.4) voltar a referir: "O que aumenta a reputação dos cientistas é a sua aceitação na comunidade científica. Ser citado é ser usado. O uso dos trabalhos que fizeram representa a sua qualidade, medida de acordo com os progressos científicos que provoca... segue a lei de São Mateus. Aquela (instituição científica) quando é prestigiada atrai novos membros com qualidade, quando não o é, perde-os. E, quando impera a lei da mediocridade, expulsa-os". Enfim, a história repete-se tantas e tantas vezes! É que as mulheres e os homens com valor, fazem sombra, não é verdade? Na publicação também é necessário ser rápido, afirmando-se pela originalidade, com cuidado pela fraude e má qualidade dos resultados, uma vez que é necessário publicar para se "poder sobreviver no negócio científico". É a máxima: publish or perish.
Refere-se que Diniz põe em prática, aqui nesta obra, esses 3 rituais como fundamentos essenciais da sua existência enquanto cientista e investigador, criticando e autocriticando-se.
Numa lógica de filosofia da ciência, sempre os filósofos se preocuparam em "reconstruí-la", questionando-se sobre o que se faz, como se faz e o que se deve fazer na evolução das teorias. Por vezes há opiniões ingénuas sobre a ciência e os cientistas, referindo Althusser (1974) no que se refere ao pressuposto de que "as concepções filosóficas / epistemológicas dos cientistas são espontâneas". Porque hoje, mudam todos os paradigmas, quer filosóficos, científicos ou técnicos, já que se encontram "enquadrados em programas de pesquisa, avaliados pelos resultados" (pág.8).
Mas uma coisa é o Normal, outra o Desejável. Inicia a sua exposição com o argumento de que as teorias da realidade prática da investigação científica de Kuhn, Lakatos e Feyerabend foram influenciadas por Popper, passando depois por Bertrand Russel (1912) ou Keynes (1921). Demonstra a paixão pela ciência e pela procura da verdade científica e a sua (autor) nas palavras de Polanyi (1964): "... O papel activo do investigador, numa militância assente em certezas ou crenças que fazem prosseguir projectos de investigação que encontram a sua força numa paixão de descoberta inesgotável que guia as experiências e faz descobrir o improvável". A filosofia questiona pois, os fundamentos científicos existentes, uma "sucessão de gerações: umas constroem teorias; as seguintes refutam-nas e constroem novas teorias. Ou seja, não há falibilistas ou verificacionistas puros: na mesma pessoa existirá um e outro (Merton 1973)".
O que dizer do normal (existente) e o desejável (ética da ciência) nas práticas de produção científica? (pág.9). Voltamos á carreira do cientista: " ...tem que citar e ser citado, ser lido e ler... integrar-se... onde tem o seu emprego... ". Mais, vorazmente, abruptamente, que fere qualquer mortal com valores: " Espera-se que tenha manha e que possa e saiba usá-la. A maneira como usa as ligações que tem e ainda como as inicia, tende a exprimir-se no modo como apresenta e vai valorizar os próprios trabalhos que faz. O fim é agradar à ciência normal ". " Vencer, convencendo da sua integração e integrar a comunidade científica no seu trabalho, obrigando, por citações que faz de outros trabalhos, a que os citados o leiam, ganhando assim notoriedade e aceitação, pois necessita disso. E alguns dizem-no de modo provocatório (Thomas e Nelson, 1985) ". Estas afirmações, dizemos nós, não são só de autores estrangeiros, os nossos nacionais, também o dizem em convívio e, se não o dizem, pensam-no, já que não seria politicamente correcto, referi-lo em público. " Outros, como Rizzuto (1985), fazem a listagem do modo de comportamento do grupo social dos cientistas num aspecto formal, no contexto da prática da citação, como indiciadora de uma prática integrativa: a) Citações do Mestre; b) Um clube de citações; c) Citações de todos os trabalhos anteriores; d) Citações aleatórias  (dos trabalhos de que se lembrou no dia da recolha de bibliografia antes do envio para publicação); e) Citação dentro do contexto de um trabalho de pesquisa de literatura existente;  f) Citação ordenada só de alguns trabalhos e de referências".
Parece que estão a gozar connosco. Ridículo, não? Questionamo-nos: o que é a ciência, para que serve, o que fazem os cientistas, qual a sua liberdade, independência? É apenas um burocrata? Um bajulador do(s) Mestre(s)? Um ser repetitivo de repetições?
Diz-nos Diniz, por vezes, podem rebelar-se contra esta tendência (Anderson, 1991) e podem surgir algumas situações possíveis (Emery e Trist (1965): uma situação de placidez muito espalhada em organizações da nossa comunidade; ou de organizações concentradas, mas ambas sem grande intervenção social; uma reacção a outras organizações, para não ficar para trás; ou a da "permanência do desacordo sob a forma de programas de pesquisa com heurística diferentes, numa perspectiva Lakatosiana" (págs. 10 e 11).
O cientista é pois, um produtor de conhecimentos organizados, um verificador de pensamentos, um utilizador da filosofia, um refutador de metodologias, um actualizador de conceitos e de valores, que vai inserindo na sua produção científica. Mas um " filósofo é também um cientista, já que participa na construção dos métodos de descoberta na heurística (Ayer, 1936).... " O cientista transforma a filosofia especulativa em filosofia científica porque impõe a introdução das formas lógicas e rigorosas de produzir ciência nas práticas de questionamento dos resultados científicos (Reichen Bach, 1951, págs 228 - 229)" (pág.11) mesmo nas ciências sociais " para um maior rigor na produção de resultados ". Para Marx, " opõe-se ciência ao trabalho, já que para aquela está unicamente ligada e é propriedade do capital fixo " enquanto "os trabalhadores não possuíam conhecimentos que lhes permitissem dominar o elemento científico e fazerem a sua desalienação em relação ao seu próprio trabalho ". O processo científico era pois (segundo Marx) " um processo social acima do poder e do entendimento das massas trabalhadoras, onde o capital aprisiona o progresso histórico e o mete ao serviço da criação da sua riqueza " (pág. 13).
Caminhamos agora, após esta síntese analítica introdutória, para a "Lógica da Investigação Científica e a Pluralidade dos Métodos I", começando com o Paradigma /Programa de Pesquisa de Popper, um céptico, criticando o historicismo e a possibilidade de uma ciência social fabricar as leis, dadas as actuações incontroláveis dos Homens. Contra esta lógica de confirmação e da teoria da verisimilitude (Feyerabend, 1978) reagiram hostilmente os economistas, pela destruição de possibilidades da " proliferação dos campos de investigação " (pág. 17). Na verdade, Popper preocupava-se mais com a refutação/falsificação das teorias, como  método de análise, do que com o vocabulário ou significados usados por elas. Esta análise é refutada por Lakatos (1978), baseado na racionalidade, na qualidade da teoria científica que a aceita como " explicativa, funcionando como matriz de análise, ou seja pela heurística ", " uma vez que os cientistas estão permanentemente à procura do método que à partida dá melhores resultados, e que defendem após adopção, quer esta seja racional ou irracional" (pág. 19). Para Popper " não existe, pois, método científico, mas sim procura de teorias que se exponham à refutação como modo de progresso científico " (Popper, 1972).
Marx, segundo ele, no campo da ciência social "era um historicista apanhado por Hegel nas suas malhas, um conspiracionista não dogmático, que sabia que aqueles que participavam no jogo social não eram autónomos para definir o devir social ". Entendia que o processo de produção científico era isolado dos aspectos sociais, ao contrário de Kuhn (pág.20). Neste paradigma, " parte-se de uma sociologia da produção de conhecimentos para uma justificação ética de grupos de investigadores e da própria produção científica, ou seja, negando a possibilidade de uma qualquer tecnologia social alterar os conteúdos e a própria produção científica " (Merton, 1973).  " Kuhn acaba por justificar a formação de grupos sociais de cientistas, os quais se autoimpõem uma lógica castradora da ciência mais preocupada com uma regulação do método científico admissível e menos com a aplicação do método científico mais eficaz ". Ou seja, realiza uma crítica acérrima à comunidade científica que tenta manter o seu status quo: a ordem científica, a casta (Kuhn, 1970, Lakatos, 1978). O seu pensamento permite " a integração numa visão democratizada do processo científico, em que todos os cientistas têm capacidade de participar sem problemas nas cadeias de comando, que apesar de serem informais, são extremamente poderosas na determinação das linhas de pesquisa e dos resultados aceitáveis pela comunidade científica  " (pág.22).
Ao contrário de Popper, para Diniz, Lakatos é uma " personalidade " optimista e prática do acto de conhecer, analisadora do funcionamento concreto da prática da investigação mais ou menos filosófica ", criando uma metodologia dos programas de pesquisa, pelas "refutações expressas pelos contraexemplos que só são introduzidas por elementos mais jovens da comunidade científica, que são sociologicamente os motores do progresso " (Merton, 1963), utilizando como exemplo um problema de heurística em matemática. " O método de Lakatos construído para funcionar nos programas de pesquisa científica, tem 3 componentes: 1ª o que pode ser testado; 2ª o que é aceite; 3ª uma heurística do programa de pesquisa ". " As teorias crescem por incorporação de novos conteúdos falsificáveis. Ou seja, pelo método de análise - síntese... um mecanismo sem fim " ( Lakatos, 1978). Estes Programas de Pesquisa, devem ser progressivos (Keynes e Walras) e não degenerescentes (Marshall), isto é, devem ter capacidade de produzir conhecimentos (pág.27). " Lakatos incorpora e racionaliza a contestação de Feyerabend a uma visão redutora da pesquisa científica por parte de Popper e não revolucionária e conservadora por parte de Kuhn, embora com variantes... ". Estes programas de pesquisa vão apoiar-se futuramente na análise dos processos de cognição e processamento de informação, e muito do que hoje observamos vai deixar de ser relevante no futuro, porque diferentes serão os modos de ver os factos (Kukla e Gilmam, 1992).
Continua Diniz: " Paul Feyerabend contesta a existência de um único método ou paradigma, propondo uma procura sistemática dos diversos métodos com abandono dos que não forem eficazes ". Também não aceita " a teoria de Kuhn das ciências normais, como limitadoras da eficácia e da liberdade dos cientistas, limitados pelo uso dos dinheiros públicos que poderão limitar o uso do dinheiro na investigação ". Para Diniz, " Feyerabend é o menos limitado dos filósofos na procura de novas metodologias de pesquisa científica", " entende Lakatos e os seus programas de pesquisa, como teorias a tratar de modo não dogmático " e " expressa a liberdade individual dos cientistas pela critica às ideias de Kuhn ". Com efeito, " a única metodologia correcta neste impasse será sempre procurar caminhos ou métodos que funcionem... numa sociedade de livre escolha, onde se procura a democratização do processo de produção e escolha dos conhecimentos a produzir ". 
Aqui o autor lança novo ataque à comunidade de cientistas instalados, assaz crítico, devorador, dos oportunistas da ciência e que dela se aproveitam para benefício próprio.
Feyerabend refere que os mecanismos fundamentais da descoberta, são a " metodologia e a educação para uma maior liberdade " . " Significados, significantes, metodologia, enquadradas por uma educação libertada de preconceitos, permitem descobrir novos caminhos de descoberta, sem monocentramentos em culturas e nos métodos que as enformam ".
Diniz, passa depois à defesa de Feyerabend, relativamente a Carlos Fiolhais (pág. 35), que refere que o " Adeus à Razão" é mais sério que o " Against Method ", que foi publicado pela 1ª vez em 1975 e pelo qual se " apaixonou ".  Transcrevo Diniz : " Fui seduzido pela sua linguagem fina, soberba e escorreita, numa estrutura lógica e organizada, tecida meticulosamente, numa procura persistente da trama honesta e rigorosa com que faz o ataque ao método unicriterial ". Feyerabend é contra o método, não contra os métodos, pois defende a sua proliferação e a competição entre eles, procurando o que dá melhores resultados numa "cultura multicêntrica " (pág. 37).
Passa o autor, de seguida, à análise tradicional do processo de produção científica e aos métodos gerais de pesquisa na produção científica, que são 2: a dedução e a indução.
A Dedução tem por base a coerência, sendo esta o mais certo. " Parte-se do princípio que a própria análise da coerência é já um teste da sua verdade ". A matemática é por sua natureza um treino do " raciocínio numa certa ordem, decidir fazer certas operações no momento certo ". " pensar logicamente significa pensar a partir de relações e/ou fórmulas matemáticas ". Daí, a necessidade de um espírito metódico e da importância do computador, dando ao investigador de forma rápida, resultados rigorosos e probabilizados que controlam o seu trabalho, dão novas certezas quanto ao rigor dos estudos empiricamente comprovados e dão-lhe indicações sobre o trabalho que deve seguir.
A Indução, conforme Popper, parte de deduções de uma teoria para a sua verificação. A indução pelo uso, cria mecanismos de confirmação (Rescher, 1980).
Cada ciência tem a sua heurística, sendo ou não comum a outras ciências, há sempre algo que lhe é própria, como por exemplo: nas ciências do social, caso da Economia e da Sociologia.
Os cientistas vão procurar os fundamentos da ciência (episteme) nas suas crenças (doxas), pondo-as em competição de modo a encontrar um programa de pesquisa que as integre, criando a episteme, fazendo assim eles próprios o trabalho epistemológico (Teoria do Conhecimento).
Em síntese, " a produção da ciência pode ser entendida como uma actividade de procura de factos, relações e teorias, programada ou não dentro de uma heurística conduzida por uma lógica de pesquisa, tendendo sempre a ser programada de acordo com o que é conhecido, ou seja, a transformar-se, passando de problemas mal estruturados a problemas bem estruturados ".
 Sendo fundamental o valor da honestidade intelectual, " o investigador domina um código que constrói e reconstrói, uma linguagem e uma técnica de raciocínio e por isso é extremamente importante o questionar da técnica de pensamento, as regras de computação nos seus fundamentos, já que é preciso saber quanto ao modelo de pensamento, inserido na questão geral da sua validade: - Se o programa de pesquisa não esgotou já as suas potencialidades heurísticas ?".
Para Diniz, neste confronto de métodos, há algumas ideias a reter: o computador integra-se em quase todas as heurísticas para potenciá-las;  a indução é o método correcto nas situações de escassez de informação, ou de custo de análise elevado, medido em dinheiro e/ou tempo, em termos de tratamento e ordenação; a quantidade de usos (ex: experiências) não significa mais do que isso, não se transforma, por si só, esse facto em qualidade; deve-se por isso, relativizar e não absolutizar estas qualidades inseridas numa nova heurística ; a possibilidade de refutação é sempre a afirmação de algo de que temos informação.
" A refutação das filosofias da ciência e da produção científica cabe aos cientistas, assim como a sua reconstrução e alargamento para entrada de novos dados, numa procura implícita de sucessiva reformulação dos programas de pesquisa... A verificabilidade é em ciência económica, feita pelo confronto entre realidade e teoria, ou pela análise da sua coerência. A experimentação é o mecanismo que permite descobrir os limites de validade de uma teoria e refutá-la ou confirmá-la limitadamente. E o acto de pensar é um acto de codificação e descodificação ". Na racionalidade económica encontramos afirmações contraditórias. Exemplos: 1º o pleno emprego é desejável, 2º, mas o pleno emprego é impossível - 2 aspectos da mesma realidade;  1º convém maximizar o lucro, 2º o lucro máximo é o nosso objectivo. O acto de conhecer é o acto de qualificar, de tornar clara a realidade e, se possível, de a quantificar (objectivo da análise contabilística).
O acto de pensar pressupõe a realidade. O acto de pensar tem a ver com juízos de realidade. No acto de construção de teorias, pressupomos a existência dos valores, damos-lhe um modelo explicativo, desprezamos certos dados e procuramos os essenciais. O processo de análise do programa de pesquisa científico é racionalizador das suas práticas, assim como a análise dos processos de decisão empresarial podem dar achegas a uma racionalização do processo de produção científica.
A testabilidade é construída dentro das condições de construção de teorias do investigador. Por isso é necessário que os instrumentos de medida sejam aperfeiçoados e também a linguagem em que são expressos, as teorias e, nestas, as relações entre os números em que se estudam os factos e a realidade denotada.
A construção científica tem assim um processo de construção, ou gramática que vai cobrindo as suas necessidades chegando, por vezes, a situações em que essa gramática não funciona, quer por dificuldades conceptuais, quer por falta de instrumentos de análise. Daí a análise dos conceitos, aqui a introdução de novos significantes e significados que vão permitir a análise da realidade, terminando o conflito entre o texto e a realidade a definir. A verificabilidade é em ciência económica feita pelo confronto entre realidade e a teoria, e/ou também pela análise da sua coerência. A construção da ciência é sempre baseada numa tecnologia de construção da verdade, aceite por todos aqueles que participam na sua construção, mas que vem a ser uma linguagem quase universal das ciências empíricas e das ciências dedutivas, conforme os casos (pág.62).
Segue-se uma análise à teoria e prática contabilística, bem assim a aplicação dessa análise à economia. Quanto à 1ª, serve-se da análise de textos, documentos, facturas, recibos, da comprovação física das existências do capital circulante e fixo, dos documentos comprovativos dos elementos imateriais, como os créditos, patentes, despesas antecipadas, provisões e amortizações. Quanto à 2ª, surge a dificuldade de medir o património, custos e proveitos, ou seja, o renascer da velha questão dos reditualistas e patrimonialistas. Aqui, no domínio dos valores éticos, os significados que comandam a acção ou decisão, são construídos pela ideologia dominante (pág. 62). O risco no campo da economia é algo que não deixa de determinar o modo de decisão de investigar. O papel da incerteza depende do grupo social e do modo como este é integrado no modelo de decisão deste, dando valores diferentes para a variável a maximizar, isto em função do comportamento provável determinado pelo risco de perder. Temos que criar comportamentos éticos com valores passíveis de controlos. Contudo, podemos isolar o empírico do que é puramente raciocínio, a partir do momento em que possamos definir uma decisão sem ter que definir os processos de tomada de decisão (pág.65).
Então a linguagem, quer qualitativa quer quantitativa, é elemento determinante desta racionalização que altera os comportamentos e os determinismos, alterando as situações e as racionalidades.
Por isso, diz Diniz: " Toda a ciência é um cálculo lógico baseado na linguagem que introduz factores de realismo na descrição da realidade, aumentando a simplicidade, ou a variedade de situações em estudo, ou os processos de tomada de decisão em termos cognitivos e comportamentais, variando os riscos, mesmo na matemática, que se quer adequada á complexidade das situações, sendo a dedução baseada nos mecanismos automáticos de decisão: o falso e o verdadeiro". " A linguagem, com as palavras e a sua gramática, é o mecanismo de tomada de decisão, que convém analisar como primeiro passo para a epistemologia da ciência, a sua correcção, os domínios onde se aplica, onde se vai estender e em que circunstâncias. A Matemática, e toda a ciência, é uma gramática em que a análise dos elementos relacionais é necessária ".
Diniz, passa depois para o exemplo da análise marxista: que escolheu como heurística a análise das relações de produção. Estas relações, no dizer de Popper, são dados existenciais (Popper, 1959), portanto não refutáveis, e, a partir daí, apresenta um conjunto de explicações para factos reais. O marxismo concentra a sua existência no método e na sua aplicação, e todo ele é orientado para a análise das relações de produção, com as consequentes relações de poder e de distribuição da riqueza, daí levar a concluir que existe uma determinada leitura da realidade. Os modelos de Lakatos no campo da refutabilidade, dado o método e o ponto de partida não estão assim afastados da possibilidade de serem aplicados ao Marxismo, e até Popper distraidamente o admite, em relação aos seus critérios científicos.  O Marxismo escolheu como pontos de testabilidade a diminuição do valor da taxa de lucro, a alienação dos trabalhadores, a instabilidade do capitalismo, o aumento da mecanização, a monopolização da economia, a formação de um exército de reserva e a crescente miséria relativa da classe trabalhadora (Meek, 1967, 1973) (pag. 68).
Podemos concluir que a construção das teorias depende da heurística, do método ou métodos, dos dados da experiência, dos instrumentos e medida.
A racionalidade nas ciências sociais é o entrecruzar-se de diversas racionalidades.
Numa análise às novas formas de exploração da força de trabalho, uma nova racionalidade do capitalismo, podemos referir: o trabalho é cada vez mais intelectualizado; o investidor é condicionado pela necessidade de segurança; a sua estratégia é no sentido da minimização do risco e maximização do rendimento.
Diniz, expõe-nos de seguida, uma síntese conclusiva do que até ali tinha dito (págs. 76,77 e 78): toda a ciência é um cálculo lógico baseado na linguagem; a linguagem e a gramática são mecanismos de tomada de decisão; a matemática é uma gramática em que a análise dos elementos é necessária; os dados de raciocínio devem ser construídos de forma intelectualmente honesta; os mecanismos de demonstração têm de ser analisados conforme cada ciência; cada uma delas vai-se adaptando ás tecnologias disponíveis; a tomada de posição é definidora das metodologias ou das heurísticas; a validade do modelo depende da sua refutação; toda a ciência tem um método de produção e avaliação de resultados; a metodologia necessita de prática social; os cientistas não têm uma filosofia espontânea, mas avaliada pela sua utilidade que decorre do seu uso.

Passamos à 2º parte desta obra:
" A introdução das novas tecnologias provocou o desenvolvimento de metodologias alternativas de análise filosófica da investigação científica ". É a forma como se faz o processo cognitivo que determina o processo científico. A teorização dos fractais, por ex.,  permite reorientar o estudo de novas combinações físicas, assentes nas modelizações matemáticas explicativas de comportamentos anómalos e/ou turbulentos de certos fenómenos.
" A questão fundamental da investigação científica é a heurística como instrumento de produção de conhecimentos ". Conhecimentos que pretendem fundamentalmente racionalizar a actividade humana. O investigador científico, define e concretiza os objectivos cognitivos e de operacionalidade da produção científica, acompanhados de valores éticos e estéticos. Racionalidade como heurística e critério de qualidade. A caridade é não racional: " acto de dar sem receber nada em troca ". Mas na economia social há uma lógica de racionalidade: prestar o melhor serviço pelo gestor e o contribuinte ter benefícios fiscais. Optimizar os recursos dos doadores. Outra lógica é a do roubo, que é a obtenção de rendimentos sem trabalho directo ou indirecto, considerando o que é racional de modo impróprio e vice-versa. " A racionalização do discurso é feita a partir da linguagem operativa da observação, quer da linguagem axiomática da dedução ".
A heurística é um conjunto de instrumentos teóricos de pesquisa que permitem fazer a definição de uma situação, com ou sem determinação de uma racionalidade que apresente potencialidades de com estes conhecimentos se atingirem determinados objectivos. A heurística apoia-se na sua conceituação, na tecnologia de base que lhe dá forma e a potencia. Actualmente a heurística funda-se na informação e na computabilidade desta informação, posteriormente nos resultados alargados a que dá origem, com o preenchimento sistemático de todos os vazios de informação.
A decisão é uma forma de condicionar o meio envolvente através da procura de soluções e actuações, acompanhadas de formas de comunicação de ordens, conseguindo, dessa maneira, controlar o devir social dos problemas, onde há um tipo diferente de acção que pode alterar o devir das probabilidades, de condicionar os efeitos das actuações futuras pela previsão das acções do adversário.
A psicologia tem de estar ligada ao fenómeno económico como fundamento de uma racionalidade de decisão que se transforme em acção.
Bela similitude: - Conclusão para Diniz: nem todas as revoluções são para ser feitas, nem todas as mulheres devem ser conquistadas (!!!) E os homens, pergunto eu? Devem ou podem, ou querem,  ser conquistados?
A linguagem científica é a continuação da linguagem do senso comum, procurando o rigor como meta. As metáforas permitem escrever e ensinar melhor.
Continua Diniz: A engenharia da escolha resulta de uma sucessiva evolução de uma análise estatística, que se apoia na concepção de utilidade, de probabilidade e de uma racionalidade, juntas num modelo optimizador levam a escolher um máximo de utilidade. A engenharia dos processos de decisão, é uma engenharia da escolha, análise da consequência lógica de decisões, onde se incorporam elementos de jogo que permitem, para quebrarem a rigidez das regras decisionais, aumentar a capacidade de descobrir novas actuações e decisões, com maior poder racionalizador (March, 1971) (pág. 95).
Diniz introduz aqui a metafísica como elemento de ligação entre a ciência e a vida de cada dia. A metafísica de Kuhn é constituída pela ideia de um grupo básico de cientistas, possuidores de um paradigma, reunido numa matriz heurística, com alguns enigmas para resolver. Em Kuhn não é importante a heurística, mas sim o paradigma, que serve de traço de união dos cientistas que resolvem problemas que lhes são dados pela sociedade. A metafísica produzindo questões científicas, é o principal da ciência e os cientistas, os seus agentes.
Para permitir um maior grau de certeza, os filósofos tentam criar uma teoria atemporal do que se passa no trabalho dos cientistas, descrevendo o que fazem e pretendendo racionalizá-la (pág.104).
De uma forma geral, são as comunidades científicas que criam as normas e as formas de aprovação dos resultados que nascem em resultados de interesses sociais que os usam no seu quotidiano. As comunidades científicas crescem demograficamente em termos absolutos e relativos em função da aprovação social da qualidade e validade no uso quotidiano. A ciência é cada vez mais uma forma de vida, os cientistas prosseguem o seu interesse próprio na investigação. O seu trabalho está inserido na vida social e económica, mola real de uma forma de vida assente na inovação como forma de resolver os problemas práticos (Taylor, 1973). A ciência fornece não só as formas de produção, mas também os mecanismos de controle dessa mesma produção. A produção científica funciona, como qualquer produção, com custos e proveitos, com capital e com trabalho, com uma racionalidade que lhe é imposta pela sociedade científica, pelo mercado, pelo político, tudo expresso em orçamentos (Diamond, 1988). A Escola é o local onde os conceitos de uma produção científica são ensinados. Ensinar a pensar é o papel da Escola. Qualquer tipo de raciocínio: o estatístico e o lógico.
Para Diniz, nada é impossível, neste final da 2ª parte. O conceito de paradigma nasceu para ser quebrado. Quebrar paradigmas é fazer proliferar as formas diversas de fazer andar a racionalidade e por novas formas de usar as novas tecnologias da informação. A sua capacidade de cálculo e a sua rapidez e operacionalidade é fundamental na construção do novo paradigma desta era turbulenta. Este é o resultado da desconstrução dos anteriores ou do fim destes, do princípio da infinita proliferação dos programas de pesquisa.

No início da 3ª parte, Diniz volta á utopia e ao real na análise marxista (pág.111). Refere que, nas novas relações de produção, há necessidade de falar em relações entre agentes e principais. O agente representando o trabalhador e o principal representando o patrão. Os direitos de propriedade, passaram a ser direitos de controle. Ser dono é ser controlador. Defender os direitos de propriedade é a condição para o desenvolvimento de um mercado de capitais. Gerir o uso de bens públicos ou colectivos é difícil, porque estes, pela sua natureza, não são distribuíveis a retalho, mediante um preço dependente do seu uso. Na relação de agente e principal, podem surgir dois tipos de problemas básicos dentro do esquema geral de um possível oportunismo: o agente comporta-se de acordo com os seus interesses e não de acordo com os interesses do principal. O 1º problema é o azar moral, que consiste em ter de dar informação a um agente que se comporta dentro de um esquema previamente elaborado com desvios, o azar moral para o controle em que o principal tem informação suficiente; o 2º, a selecção adversa, em que o principal não tem a informação suficiente.
Por isso, monitorar e observar são agora as palavras chave. A nova lógica social terá assim que gerir 3 factores ou elementos estruturantes: o mercado, as hierarquias (ou estruturas organizativas) e o político. É da capacidade de gerir, fazer competir e integrar estes factores, que pode surgir uma tecnologia social realista e operacional. Já não é uma simples engenharia, mas uma tecnologia que é racionada a um nível mais elevado e portanto com uma nova capacidade heurística.
Cria-se assim uma nova teoria económica: o paradigma dos agentes principais (Ricketts, 1987). O programa de pesquisa nascente, despoleta um novo paradigma explicativo, designado por economia da organização, onde aparecem, como sub-programas de investigação, agora com ligação aos dados psicológicos e sociológicos da análise do homem em organização (Sociologia das Organizações) e do controle dos seus aspectos mais negativos: o desleixo e a desonestidade (Donaldson, 1990), o que se passa necessariamente por um novo sub-programa: o da análise do papel da moral na organização e estruturação das relações entre agentes e principais (Kahn, 1990). Neste contexto, os valores da verdade são um objectivo da investigação.
O fundamento da predictabilidade dos comportamentos racionais dos diversos actores é a assumpção da existência de um modelo assente na utilidade dos resultados das decisões, que pode ser probabilizável, porque mensurável na incerteza, racionável de acordo com propósitos claros, que leva a evidências de resultados com expressão quase completa das suas limitações (pág. 114). Daí a teoria económica da organização para lidar e resolver os problemas de controle (Knight, 1925). Os interesses dos homens são o mecanismo fundamental de causa de gestão e de mudança, condicionando e apoiando-se nas relações interpessoais, contrariando os dados dos problemas, sempre numa pluralidade de causas que influenciam o resultado final. Por isso, resume o seu pensamento dizendo que a compreensão, predição e controle do pensamento e emoção, comportamentos humanos, são uma arte, que incluem a comunicação mental.
Diniz volta ao marxismo para nos dizer que se renova como modelo e como programa de pesquisa: A Tragédia é uma purga que destrói a força do poder revolucionário (revolução 1917) atacado por dentro do partido por aqueles que procuram o poder, num esquema oportunista, motivado fundamentalmente pela satisfação de interesses pessoais. A purga é desencadeada por forças que têm tudo a ver com o secretismo. As falhas do socialismo ou da hierarquia:  Marx não compreendeu que o progresso técnico se incorporava numa mão de obra cada vez mais culta, mas também esta lei não é só por si verdadeira, pois o trabalho sofre simplificações por via da tecnologia que a partir do complexo simplifica, o que contraria a efetivação desta lei tendencial. A tecnologia é assim, a construtora e reconstrutora das novas relações sociais.

Diniz, em resumo conclusivo, nesta obra:
Falou do Normal e do Desejável na produção científica. Observou a Ética da Ciência e as práticas de produção científica. Falou da filosofia de Popper e Lakatos no social e político. Questionou o programa de pesquisa de Popper e reanalisou a sociologia /psicologia do fenómeno científico. Descobriu a filosofia de Paul Feyerabend e a sua expressão marginal pela retoma da análise do significado como condicionante da análise qualitativa e quantitativa do empírico. Fez o estudo dos métodos da pesquisa e produção científica, com eleição de dois grandes métodos: a dedução e a indução. Fez a confrontação dos métodos em Popper e Lakatos. Realizou a análise da prática da Filosofia na Ciência Económica. Voltou à análise do modelo marxista com Popper e Lakatos, reanalisando as novas formas de exploração da força de trabalho, procurando uma nova racionalidade no capitalismo. Analisou a engenharia da decisão e a economia como fundamento da engenharia económica ou da gestão. Reestudou a linguagem como elemento base da Ciência Fundamental e da Engenharia da Escolha e, ainda, a Metafísica como fundamento dos paradigmas e dos programas de pesquisa. Questionou a Engenharia da Escolha como base de uma nova Engenharia Social. Como base de uma utopia, as novas tecnologias e novos programas /paradigmas de pesquisa ou reformulação filosófica. Fez nova incursão pela Economia da Ciência e chegou à Engenharia dos Recursos Humanos, reencontrando a Escola, agora como produtora de habilidades. Alegrou-se porque sentiu que nada é impossível. Discutiu a Utopia e o Real, assentes num novo paradigma que gera programas de pesquisa ou num novo programa de pesquisa que gera paradigmas, reencontrando a nova teoria Económica e a gestão do real e reencontrou a questão da Gestão na Construção da utopia, depois de, mais uma vez, ter sofrido com a tragédia.

Volvidos 21 anos desta análise, perspetivando-a numa visão ideológica marxista, se bem com vertentes criticas na investigação nas ciências sociais, nomeadamente na economia e sociologia, confrontando-a com outras teorias mais ou menos recentes e reformuladas, podemos acrescentar: há necessidade de novas reflexões, propor novos paradigmas, criar ciência, pois o conhecimento não tem limites na sua inumerabilidade e incomensurabilidade. Foi um maravilhoso percurso, se bem que nada fácil, seguir esta análise do pensamento de Aires Antunes Diniz.

Maria Idalina Alves de Brito
Bragança, setembro a novembro  2015






ENSAIO "A Espessura da Cinza"


ENSAIO
SOBRE A OBRA
"A ESPESSURA DA CINZA"
DE
Anami Randa

Uma paisagem em tons de cinza com raios de luz. Um homem. Um cais. Uma cidade. Um ancoradouro. O infinito. Uma aldeia. Uma fronteira.
A capa de um livro "A espessura da cinza" de Anami Randa, nome literário de Ana Miranda, de seu nome completo, Ana Paula Miranda Pires, nascida em Bragança no ano de 1967. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Estudou Jornalismo, Teatro e Locução em Lisboa. Em 1990 torna-se jornalista profissional de Rádio e Imprensa. Em 1999 integra a redação do Canal europeu multilingue de Televisão Euronews onde exerce funções de jornalista bilingue de Política Internacional.

Tem publicadas as seguintes obras:
. "O Diabo é um Homem Bom" - 2012; 2015 - Edições Sem Nome - 2ª edição
. " O Último Ano do Mundo" - ebook - Amazon.Brasil - 2013
. " A Espessura da Cinza" - ebook - Amazon.Brasil - 2014; 2016 - Edição impressa Portugal
. " Rapariga Sem Situação Amorosa" - 2014 - Projeto contínuo Facebook
. "A Felicidade dos Peixes" - 2015 - Edições Sem Nome

Na contra capa. " Um escritor é acima de tudo um ficcionista de verdades insuportáveis, quer coletivas quer individuais. As revoluções políticas mudam os países, mas será que mudam as pessoas? Em "A espessura da cinza" os personagens surpreendidos pela notícia da revolução, em 1974, tentam recobrar do medo remexendo a cinza de um Portugal sinistrado pela ditadura salazarista, antes de se moverem para o futuro".

Em nome da Direcção da ALTM de que Ana Miranda é sócia, aqui me encontro para realizar a Apresentação desta sua obra. Apesar de ser de Bragança, os nossos caminhos seguiram outros percursos e só hoje nos conhecemos pessoalmente. Por isso, a dificuldade de melhor a definir como escritora. Mas aqui me encontro junto de vós, nesta coerência de abertura de espírito a novos saberes e experiências para juntos aprendermos um pouco mais , já que para mim, o 25 de abril foi vivido e sentido em plena capital do nosso País. Um pouco diferente, claro! E bem cedo! Nessa madrugada do dia 25 e que descrevo também no meu romance histórico: "Despedimo-nos, então... ", Porto, Papiro Editora, 1ª edição, 2009.

25 De Abril, leio, um dos poemas mais belos de Sophia de Mello Breyner Andresen, in " O Nome das Coisas".
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Candedo. Aldeia raiana, imaginada, mas que é uma aldeia do concelho de Vinhais.
Estamos a 28 de abril 1974, 3 dias de atraso da revolução, um domingo.
Ninguém ouviu a mãe quando chegou da cidade dizendo que os comunistas estavam a queimar papéis na Praça da Sé. Só a palavra açambarcamento fez mover Ida Brás. Um País inteiro em fila de espera: "Coitadita, o marido deve fazer-lhe muita falta. Tão novinha, aquela filharada toda e o homem por lá". Enquanto o Sr. Valente, merceeiro, homem devoto, praticante, salazarista, teria de ir à missa nesse domingo. Mas o que não sabiam as mulheres do crochet é que ela tinha Jaime e Chico para a consolarem. Do Chico gostava dos seus beijos. De Jaime o seu encosto e das palavras proferidas "era preciso habitar o tempo, porque desabitado ganha a espessura da cinza. Eis a razão dos sentimentos!" E Ida o tornou seu amante, enquanto o marido, emigrado, lhe enviava ao longo do ano pequenas remessas de dinheiro que ela rapidamente gastava.
Uma linguagem poética, sintética, frases curtas, usadas por Ana Miranda. Porque a palavra é vida passageira, mesmo que se apresente ficcionada, como é o caso. Um dia pode definir uma aldeia toda, uma cidade, um País, milhentas vidas ou uma só. E a cor também. O cinza. A penumbra que não é branca nem preta. O silêncio. A indiferença. O nevoeiro. A espera. O desespero dos povos. O governo dos tiranos. A marcha dos soldados. As roupas. A fuga dos rebeldes.
Como  Jaime. Tornou-se contrabandista com o apoio de Carriço, que um dia apareceu estendido nu e sem mercadoria nem motorizada numa das bordas do rio Maçãs por culpa da Pide, e , com a decisão de Ida. "Não chores e ele não chorava. Não vais e ele não ia". Chegou assim ao melhor contrabandista da rede de Quintanilha a Miranda do Douro pelo negócio das barras de chocolate, cacau em pó, azeite, conservas, tabaco e bebidas gasosas. Jaime era duro a organizar o tráfico e a ditar ordens, mas só longe de Ida. A esta, só conseguia obedecer. Um dia Jaime desapareceu. Ninguém viu. Ninguém sabia porquê. Mas na véspera tinha tido uma discussão férrea com Valente por causa do preço da mercadoria. E no silêncio rouco de um carro, a espera em exercício de vigilância e uma chamada telefónica na mercearia Jaime apareceu no adro, semanas mais tarde, massacrado, meio morto.
Continua Anami Randa com a definição de palavras em cada capítulo. Não um nº, um título apenas, mas o significado da palavra, como este de cinema: estabelecimento ou sala de projeções cinematográficas. A vida de cada um de nós também é um longo continuo de imagens de um filme.
Alberto, estudante de direito em Coimbra, filho de Isaura Raposo, em casa de quem havia o outro telefone da aldeia, foi solto, assim o disse ela: " ...o meu Alberto vem aí, a caminho, porque abriram as prisões". Neto de um outro Raposo, que eram muitos, emigrante na Suíça logo após a chegada de Salazar ao poder. Enriqueceu, mas já o seu bisavô, vindo do Porto, fora republicano e deixou Portugal desiludido com a política. Partiram todos os filhos. Só as mulheres e o "R" gravado nos marcos de granito ou nos soutos de castanheiros ficou. Assim como a vivenda numa colina soalheira na curva da chouriça, que se encheu de garotos, avós e mães. Os homens mudavam de País, mal a barba despontasse porque a "Pátria é sustento" ou " Devemos amar a terra onde somos livres, nação que não cuida dos seus merece grandes traições" e, por vingança ou dinheiro lá ficaram. Alberto, filho de Isaura, foi o primeiro em 3 gerações a permanecer no País. Herdou do bisavô republicano reviralhista o  genes da oposição, as ideias, o fígado e o físico, e a lembrança da infância em noite de Natal: "O poder tem obrigação de educar o povo" ou "que braços e cabeças sem a "pólvora dos sonhos, não fazem revoluções". Este cetro foi passado num hospital de Genebra e seu corpo ficou sepultado no talhão dos Raposo em Candedo, Alberto de seu nome, que tanto sonhou com a democracia em Portugal, viveu e morreu sem lhe ver a cor. Alberto, bisneto, que foi preso pela 1ª vez em 1972, quando em Coimbra distribuía panfletos sobre a projeção de um filme "O Ditador", culpa de Chaplin, pois Salazar não suportava os seus risos cómicos. António, seu pai, nunca soube desses tempos. Isaura tudo fazia para esconder os desvios do filho, mas da 2ª vez foi mais grave, pois teve de arranjar um advogado para o defender da difusão de pornografia de "O último tango em Paris" , desta vez por culpa de Bertolucci. Outro culpado. Evitou o Tarrafal, mas teve de cumprir pena até ao dia 26 de Abril de 1974. Quando chegou a Candedo, já atrasado, com um saco de ajuste de contas para os "bufos, esses filhos da mãe" já Valente não dava sinais de vida.
Segue-se uma nova aguarela e um novo capítulo numa mistura de cinza e luz, pesadelos e cansaços, sonhos e esperanças, desencontros e amor. O Bastardo, que é o mesmo que filho nascido fora do matrimónio, ilegítimo naquele tempo em que nascer nessa situação era o mesmo que coisa ruim, excluído, miserável, filho do pecado e da desonra.
Foi Natália a culpada, pois pariu Isabelinha quando aos 14 anos caiu nos braços de Chico, mais velho 3 anos que ela, numa manhã de "fumar da boca", fria de inverno e da descoberta dos corpos de dois adolescentes incompletos, muito antes de ele ter caído no leito de Ida. Uma promessa não cumprida. Novas alcovas, novos desvios e favores, até que a mãe, com a vergonha, desonra e falatório, lhe pediu que abandonasse a casa. E emigrou. Soube em Paris do 25 de Abril no próprio dia, ultrapassando a submissão e a violência, o sossego e a cozinha, o trabalho do campo, para cair ao balcão num bar de Pigalle. Mas ei-la que regressa esplendorosa nesse dia 28 de abril no momento em que o povo esperava Valente e a igreja estava fechada e não havia missa por causa da revolução, duas e meia da tarde, passados 6 meses e 3 semanas da sua partida, só possível com os 3 contos que Valente lhe deu, por lhe  ter feito tudo.
Passamos pelo poema do Chico, "sem ser bonito", aquele ser bondoso e amável que trabalhava no matadouro e era amante de Ida, com quem passava algumas noites, pois as demais ocupava-as com Jaime ou outros, a sorrir no escuro do quarto. Depois, o do Cemitério, e a arma escondida numa caixa debaixo do colchão da mãe de Zezé. A pistola do pai morto pela pátria na Guerra de Angola e enterrado aos 23 anos no cemitério de Candedo.
É que as revoluções não se fazem só com flores ou cravos, mas também com mortos e feridos e açambarcamentos, pelo que o povo continuava à espera que Valente abrisse a porta da mercearia antes que alguém morresse de fome e medo.
A Mãe, um poema cantado de doçura transformado em uma nova visão nesse domingo de 28 de abril de 1974, em que estudar e olhar para os retratos sobre o aparador da sala significava a dor e a incompreensão, a dúvida pela morte do pai. Zezé, 9 anos de vida, leu todas as cartas dessa caixa, à exceção da última. Aquela que a mãe nunca recebeu e procurava há 6 anos, uma explicação que não a oficial que lhe entregou um caixão selado com a menção "morto no cumprimento do dever". E a guerra surgiu. A dele próprio. Porque pela boca de Valente  " - Qual guerra Srª Vicente? São uns terroristas que andam por lá aos tiros. Querem roubar-nos o que é nosso". Valente era a lei. Os braços, os ouvidos, os olhos, a boca do poder. O domínio. O controle da vida de todos e de cada um.
Zezé e a sua vida anónima, como a dos habitantes heróis de Candedo, 40 anos de história, 1974 a 2014, são percorridos em "A espessura da cinza" desde o período da Guerra Colonial, nomeadamente em Uíge, Carmona,  Angola, pelo pai; o 25 de Abril de 1974 na aldeia de Candedo até 2014; últimos anos da Troika, e quando encontrou o amor no seu berço natal, após a morte da mãe trucidada por um comboio depois de fugir do manicómio, ou sanatório de Izeda, outro nome real geograficamente , a vila de Izeda, mas onde não existe nenhum equipamento de saúde com este nome, devido à sua demência, e, ao fim de uma paixão que pensava duradoura já como estudante universitário na cidade do Porto onde cursou Direito, após a entrada no Seminário, na penúltima intenção de ser Padre.
Reencontramo-nos com o regresso dos retornados, a introdução e dependência das drogas, as relações afectivas e liberdade sexual e suas nuances, a vida noturna das cidades, as ideologias políticas, os oportunistas do poder , o desemprego, a emigração.
Uma aldeia. Uma cidade. Um País.
Uma visão poética e cinza! Tão pouco tempo para tantas vidas! Tão poucas vidas para tanto tempo! Tantas relações. Tantos seres se cruzam, unem e afastam, vivendo as suas próprias vidas, no meio de outras, que são tão unas e diferentes. Tanta submissão e resistência contida que explode como uma bomba nesse 28 de abril.
Este livro de Ana Miranda transporta em si todas as componentes de uma narrativa ficcional de uma época, um romance histórico, que dá gosto ler e vontade mais de ler para se chegar depressa ao fim.
O centro da aldeia não era a paróquia, mas a mercearia do Valente. Ou as duas, perguntamos nós? Pessoa assim como ele, diligente, zelosa, colaborativa, controlava toda a receção e emissão de cartas, postais, telegramas, chamadas telefónicas e estava autorizado a riscar o que não interessava e decidir a sua entrega ou não ao destinatário. O seu reino era a sua casa com casa de banho para a época, os seus chinelos de quarto ,o seu quintal com pomar, as mulheres como Ida e jovens como Natália, que assediava ou utilizava em troca de comida e favores, ou até de Pedrito, irmão mais velho de Tomé e filho de Ida, que o considerava como pai e a quem deixou as economias que tinha escondidas na caixa ao fundo da mercearia.
Mas não conseguiu controlar a paixão da mãe de Zezé por Jaime, e o seu ódio "... não posso vê-lo à frente... é uma serpente a comer-nos vivos", ou o ódio de Ida "- Tens de limpar o sebo ao sacana! Tem-nos a todos debaixo das patas" e de mais 300 pessoas de Candedo e arredores, e nesse dia 28 de abril de 1974, dia da Revolução em Candedo, apareceu morto no seu quintal, com 5 facadas e onde debaixo da macieira teve uma segunda morte com 3 tiros de revólver nas têmporas. ... "fino que nem um rato, rico que nem um porco e feio como um tição", e "feio como a noite", dizia a mãe. Solteiro, filho único, pais severos e autoritários, que lhe "sorveram a juventude e provavelmente a formusura".
O Padre Miguel, pároco de Candedo desde 1970, conduzia um Fiat 600 D soube da revolução mal esta começou por telegrama da Diocese de Lisboa (entenda-se Patriarcado), mas nada disse. Viu a fila em frente à casa de Valente. Eram 3 da tarde desse domingo. Então disse: "Vou dar a catequese. Fiquem onde estão. Veremos depois dentro de casa se, entretanto, não der sinal".
 Chega Alberto. Solta-se a correr o amor de Isaura. Um magro sinistrado. Todos ficaram tristes pois absorveram 40 anos de tristeza e envelhecimento, mas Alberto gritou. "Viva a revolução! Viva a liberdade! Viva Portugal! Vitória! E envergonhados alguns responderam aos "vivas" e a mãe chorou. Porque sobreviver é resistir.
A infância dos garotos de Candedo foi a lixeira. Um céu aberto onde caçavam tudo aquilo que queriam. Nessa infância de nostalgias e simbolismos Tomé e Zezé partilharam brincadeiras e cultivaram a amizade nos livros de Mandrake  de Bufallo Bill ou do Fantasma, tesouros que guardavam no cofre-forte de uma caixa de cartão. E um espelho onde cresceu, indagou e se examinou minuciosamente aos 9 anos de idade, e se apercebeu da incompatibilidade dos factos: como um homem pode escrever uma última carta à sua mulher estando já religiosamente enterrado? O amor entre Zezé e o pai era um retângulo de perguntas feitas à mãe e às palavras das cartas.
Eram as 4 horas da tarde. Padre Miguel impunha calma, lei, mas ninguém obedeceu. Jaime dizia: a lei desapareceu. Arrombaram a porta e descobriram sangue. Houve desgraça. Abriram as janelas e Ida pode ver o que Valente via quando queria. Foram procurá-lo. A mãe respondeu  a Ida "Teve o que merecia o sacana".
A criançada invadiu a mercearia e a sua revolução foram os rebuçados e os chocolates pilhados dos frascos. Eram 5 horas da tarde. Nesse instante o padre Miguel anunciou: Está morto!
Fez-se a investigação. Fizeram-se diligências. O Sr. Padre tentava fazer com que tudo fosse legal. Mas a mãe nas suas costas lançou-lhe as perguntas: Sabia o que fazia ele com as cartas vindas de África? Abria-as. E lia-as. Riscava o que lhe apetecia. E escondia as outras. Sabia o que fazia ele ao filho da Ida, Pedrito? E o que fez à pequena Natália antes de a pôr a andar para França? Pôs-se neles! Como um cão numa cadela. Em cio. O padre fingiu não ver o desvario da mãe, talvez a revolução lhe toldasse a lucidez. Ou já não andava no seu perfeito juízo, pois punha-se na igreja a ditar cartas e a falar com o fantasma do marido.
A guarda espanhola foi a primeira a chegar a Candedo. Os dois Inspetores de Zamora, o mais velho e mais rude e o mais novo, magro e baixo, Rodriguez, questionaram a mãe, o Alberto, a Ida, Pedrito, Jaime, Natália e Chico. A mãe foi dispensada de novo interrogatório porque estava tresloucada e perigosa e nessa mesma noite internaram-na no hospício. E fizeram o auto " João F. M. Valente morreu de 5 golpes profundos na zona esquerda do externo entre a terceira e oitava costela... as motivações podem ter sido por razões políticas, económicas ou amorosas... 330 habitantes da aldeia e arredores, teriam motivos para desejar-lhe a morte segundo confirmação dos inquiridos...". Ninguém foi preso.
Zezé entrou no Seminário. A mãe no isolamento do hospício. Isaura numa visita contou-lhe que Pedrito tinha fugido da casa, 16 anos, nas ruas do Porto. Entregou-lhe uma nova carta vinda da África do Sul, trazendo o nome do pai no remetente. Só anos mais tarde a leu. A náusea cinza invadiu-o, um solitário, um órfão, um triste abandonado, sem pai nem mãe. Embebedou-se nessa noite livre do seminário e pela primeira vez pousou as mãos nas nádegas de uma rapariga  loira com ar descuidado.
Uma nova visita de Chico, que o matadouro tinha fechado por isso ia emigrar para França. Entregou-lhe nova carta da África do Sul, de remetente o nome do pai. Não a abriu.
O Padre Miguel veio buscá-lo e dar-lhe a notícia que a mãe tinha desaparecido. Só deram pela sua falta de manhã. Caminhou 16 Km à chuva para se lançar à linha do comboio onde foi trucidada. No Azibo. Zezé faria no dia seguinte 13 anos.
Pois, Ana Miranda: " O rigor e o ímpeto dos que amam até à autocombustão, até à poeira espessa da cinza "... geralmente acabam assim, na morte.
Não conseguiu chorar a mãe, pois sentia-se só e não preparado para compreender a função de um pai em cujos braços gostaria de existir. - Sabes, meu tesouro, um dia serás tão forte e grande como ele. Terás dedos finos e longos como ele e jogarão ao braço-de-ferro, assim, vá lá! Não desistas!
Zezé foi estudar para o Porto. O Padre Miguel trouxe-lhe os 80 contos obtidos da venda da casa e dos terrenos de Candedo.
Só aos 18 anos leu as cartas do 1º cabo José Manuel da Costa Vicente escritas em Carmona antes de morrer, nome estranho de pai... Fez o luto e chorou no amor em Lisa, idealista, queria ser escritora ou jornalista.
Percorreu com os amigos Galvão, Costinha e Touro, as discotecas, os bares, as praias, os concertos dos Xutos, GNR ou Rádio Macau. Também houve as raparigas, as namoradas, o riso, as cervejas, os amendoins, os tremoços, as histórias de engate,... esse pequeno mundo de sonhos. As campanhas políticas. As eleições presidenciais. A semana académica. O canudo de advogado, Lisa nos seus braços, fundar uma família, comprara-lhe um bonito anel de noivado. Decidira que o ano de 1986 seria o ano zero da sua nova vida de adulto.
Um dia de praia. Os amigos. As namoradas. O sonho desfeito  - Zezé tenho uma coisa para te dizer. É sobre nós. Precisamos de ter uma conversa. Há coisas que desconheces de mim. Tivemos uma história bonita, 4 anos. Quero partir, viajar. Quero acabar. Estou a amar outra pessoa. Amo a Rita. É ela que conta.
Os sonhos perdem-se. As memórias atrasam-se. As lágrimas acabaram o amor. Os pesadelos. A revolução. - Zezé tens de reagir. Vais filiar-te no partido. Temos falta de um jurista.
Amigos. 1989. A política não era para ele. Também não o era o escritório como jurista de uma empresa de imobiliário. - Tenho andado a pensar no meu futuro. Tomei a decisão de regressar ao seminário. - Não estarás a fugir para esquecer?
Última semana de homem livre. Festa de amigos. DJ. 6º feira. Surpresa. Lisa que não era a sua. Estilo punk-gótica. Com um crista, argolas várias nas orelhas. Preto nos lábios e olhos, roupa. Magreza esquelética. Em recuperação de drogas. Com os pais a tomar conta dela. Rita tinha morrido de overdose. Lisa obrigava-se à linguagem antiga, às maneiras antigas. Fracassado ensaio. - Somos parte de um processo não concluído. Seremos sempre. As pessoas e os países. Ela fazia a limpeza do tempo certo porque precisava de chegar sem atraso ao seu destino.
Dia seguinte. Pedrito no bar com o seu sócio e amante. Há anos que não via uma cara de Candedo. Revelações: as outras. O tio Valente. Uma das melhores pessoas que conheceu. Um homem generoso. Ler e abrir as cartas do Ultramar eram o trabalho dele. - Era um fascista, Pedrito. - E Jaime? Era um malfeitor, um ladrão, um abusador. Nenhuma lhe escapava. Nem a minha mãe, Natália, a tua mãe, as filhas do Raposo. Elas não sabiam uma das outras, mas nós, eu e o Valente, sim! Víamos tudo!...Não é fácil a verdade...Eras uma criança...
Zezé empalideceu. O chão fugiu-lhe. Habituado à cinza (mais uma vez esta palavra e cor tenebrosa) o seu coração sem cor abriu a boca de fome, sede, ausência quase recaiu no regaço de Lisa.
Pedrito não suportava ninguém na aldeia. E desabafa - A última pessoa a falar com Valente foi a tua mãe, Zezé. Só eu sei... Ela ficou louca quando Jaime a abandonou... Queres mesmo saber o que aconteceu naquela noite?
Não lhes conto, para não perder o suspense...
Três dias antes da data da apresentação  no seminário, Zezé decide ir a Candedo. O seu lugar geográfico lá estava. Mas tudo mudou, e muito. Quinze anos tinham passado... O amigo Tomé agora provisoriamente pároco de Candedo. As chaves. A porta de casa.
A solidão dos cães introduzia agulhas nos pontos mais sensíveis da minha carne. Não! Eram os dentes dos cães que estavam a ferrar a minha carne. Como entraram? Dores horríveis no corpo. Calafrios. Delírios. A mãe a chamá-lo. Cheiro a café. Três pancadas na porta. Uma voz fina, graciosa de jovem mulher. A voz desapareceu.
Silêncio. Sou eu no silêncio do espelho. Eu a tragédia do meu país e do pai e da mãe e de Valente e de todos os que têm o infortúnio de tropeçar na maldade vagarosa dos predadores, dos ditadores, dos políticos... Nada faz sentido. Falhei. Preciso de uma corda para apertar o pescoço... Depressa!
A luz. Os cabelos ... tinham a luz de mechas de fogo. Ruivos dóceis. A magia existe. E eu amei-a loucamente...
Aqui termino esta descrição. A meio. Sem vos falar quem era ela. E o que faziam em 2014 na apresentação do 3º livro de Lisa " Amor somente".
Para lerem este belo romance de Anami Randa " A espessura da cinza".
Um livro que é uma longa declaração de amor às raízes, à terra onde se nasce e suas fronteiras, à nostalgia da infância, aos seus habitantes anónimos que também constroem a sua própria história resistindo a todas as formas de opressão, e, porque não também ao País, a Portugal?
E termino com as palavras da autora : É meu desejo que possamos partilhar com outros a alegria de fazer bem que é a única felicidade verdadeira.
Assim é, Ana Miranda, Anami Randa.

Bragança, 17 de setembro de 2016
Fundação " Os Nossos Livros".
Lara de León
(Nome poético de Maria Idalina Alves de Brito)






sábado, 9 de abril de 2016




CONTO



“A MENINA E O 25 DE ABRIL”





Era uma vez uma menina.
Pequena, franzina, de pele branca rosada, olhos verdes e cabelo negro.
Era a mais velha de 6 irmãos.
Vivia numa casa feita em tijolo e chão de cimento.
O pai trabalhava na construção civil e também na agricultura.
A mãe cuidava da casa e tratava dos filhos e do marido.
Também ía para o campo cavar, regar, plantar legumes e dar de comer às galinhas.
Porém, estava muitas vezes doente e era a menina que cuidava dos irmãos mais novos.
Tinha 8 anos e já lavava roupa no rio, limpava a casa e fazia a comida ao lume, após regressar da Escola e fazer os deveres.
Quase nunca brincava. Só quando estava no recreio das aulas com as outras amiguinhas.
Por isso, o sonho da menina era ser criança em vez de ser já adulta, isto é, ser uma mulher pequenina.

Quando, anos mais tarde, viveu a Revolução dos Cravos, que foi no 25 de Abril de 1974, lutou para que todas as crianças de Portugal tivessem o direito a ser crianças, que tivessem amor, carinho, que frequentassem a Escola, tivessem sempre alimentos, vestuário, calçado, casa com condições, possibilidade de ir ao médico quando doentes, e, essencialmente, que brincassem muito, para aprenderem coisas novas e, serem alegres e felizes.






NOTA: Conto para Crianças dos 5-9 anos (1º ciclo do Ensino Básico), a fim de se iniciar a reflexão /debate, sobre o Tema dos Direitos da Criança , após o 25 de Abril de 1974.




Autora: Lara de Léon
Pseudónimo de: Mª Idalina Alves de Brito


8 fevereiro de 2014
O FRANCISCO
E OS DIREITOS DAS CRIANÇAS

Era uma vez um menino chamado Francisco, que vivia numa aldeia do concelho de Vinhais.
Tinha 7 anos e frequentava o 2º ano do 1º ciclo na escola da vila para onde se deslocava todos os dias de táxi na companhia de mais 2 meninas de outras aldeias vizinhas da sua.
O Francisco, a Joana e a Inês, eram muito amigos, apesar de, a Joana já frequentar o 4º ano e a Inês o 6º, do mesmo Agrupamento Escolar.
O Francisco e a Joana, eram filhos únicos, mas a Inês tinha dois irmãos mais velhos que estudavam na universidade. O pai da Inês era emigrante em França, onde trabalhava na construção civil, e a mãe vivia na aldeia para cuidar da avó já muito velhinha, e, tratar da agricultura.
Também o pai do Francisco trabalhava em Espanha, numas minas na província de Castilha- León, por isso, ele e a mãe, viviam em casa dos avós maternos.
O Francisco gostava muito de andar com o avô Manuel no trator e acompanhá-lo no trabalho do campo, quando ia lavrar os castanheiros e semear o centeio.
Mas gostava mais de jogar à bola com o primo António, que vivia em Bragança, e vinha com os tios aos fins de semana para ajudarem os avôs. Quando isso não acontecia, brincava com o Farrusco, um cão perdigueiro, que só queria ir para o monte farejar lebres e perdizes.
A Joana, aos sábados de manhã, também ía com a mãe levar as vacas ao lameiro, já que o pai andava pelos montes a pastorear o rebanho de ovelhas.
Um dia do mês de abril do corrente ano, uma senhora que fazia parte da CPCJ, foi à escola do Francisco falar sobre os Direitos das Crianças. Todos os alunos estavam com muito atenção a ouvi-la, já que a Srª Professora lhes tinha pedido para não fazerem barulho e estarem com os ouvidos bem atentos, pois no final, iriam fazer uma composição sobre o que aprenderam.
Em casa, à noite, com todos à volta da mesa durante o jantar, o Francisco estava muito contente a contar à mãe e aos avós o que tinha aprendido.
- Sabes mãe, tive um excelente na composição porque me lembrei de quase tudo o que a senhora da CPCJ nos disse.
- Então o que aprendeste? Pergunta a mãe.
O Francisco todo entusiasmado, responde:
- Que as crianças têm direitos. Queres conhecer alguns?
- Claro, filho. Gostava muito de saber…
- Olha … frequentar a escola, ir ao médico, ter uma boa alimentação, roupa e calçado suficiente, casa para viver… também aprendi que todos os meninos e meninas são iguais, quer sejam brancos ou pretos, ciganos ou deficientes, portugueses ou espanhóis, religiosos ou não.
- Ui! Aprendeste tudo isso? Pergunta a avó Ana.
- Sim avó, e que todas as crianças também devem ser amadas e têm de brincar, não trabalhar.
- Amor, carinho e brincadeira, a ti não te falta, responde o avô Manuel. Quanto ao trabalho, achas que quando vais comigo para o campo estás a cansar-te muito?
- Não, avô… gosto muito de ir contigo para ver o que fazes! Isso não é trabalho… é ocupar o tempo, uma brincadeira para mim…
- Então, aprendeste também os deveres? Pergunta a mãe.
- Sim… por exemplo: estudar… fazer os deveres da escola… lavar-me todos os dias. Respeitar os colegas e professores. Ajudar os pais, fazendo pequenos recados…
- Muito bem, diz a mãe. Aprendeste muito… gostei de te ouvir… quando o teu pai nos visitar no próximo mês, tens de lhe falar de tudo isto.
- Claro, mãe… também lhe vou contar que as crianças são as primeiras a ser socorridas em caso de desastre e que não devem ser vendidas, e, que são todas iguais, pobres ou ricas…
- Estou muito orgulhoso de ti por saberes tanta coisa, diz o avô Manuel.
Nessa noite, o Francisco foi deitar-se muito feliz e contente…
Até sonhou que andava com o Farrusco e com a Joana, a correr, saltar e a rebolar-se na erva húmida do lameiro que ficava junto ao rio…


Maria Idalina Alves de Brito
Representante da Segurança Social na CPCJ
(Conto inédito para o Plano de Ação (PA) 2016 da CPCJ do concelho de Vinhais)
Abril - mês de prevenção contra os maus tratos na infância

Vinhais, 8 de Abril de 2016